Nelson Barbosa e os seus Investimentos

Nelson Barbosa e os seus Investimentos

A saída do Joaquim Levy e a entrada do Nelson Barbosa me lembrou um vídeo que assisti em junho de 2015, onde o Prof. Samuel Pessôa, do EPGE/FGV fez previsões que se concretizaram neste final de 2015. Veja o trecho da entrevista no link (https://www.youtube.com/watch?v=sIBHpjyBjgs&feature=youtu.be&t=32m16s)

Ele falava que a entrada do Levy era um bom sinal. Poderia indicar um reconhecimento, do atual governo, de que as políticas econômicas adotadas no passado eram equivocadas e uma mudança seria necessária. O problema, segundo ele, é que não estaria claro até que ponto o governo e o seu partido, estariam convencidos de que as mudanças propostas pelo Levy seriam uma boa solução. Não existia certeza se o governo apoiaria o ajuste fiscal.

Segundo ele, se o governo estivesse fazendo o papel do “lobo em pele de cordeiro”, uma hora poderiam se cansar da encenação. Isto significaria demitir o Joaquim Levy e dar posse a um ministro que segue a mesmas teorias econômicas adotadas nos últimos anos que nos conduziram para a situação difícil que estamos enfrentando hoje.

Segundo o Samuel, essa sinalização de retorno ao que era antes, faria o Brasil perder o grau de investimento imediatamente. Teríamos fuga de investidores e isso provocaria uma desvalorização do real com o dólar atingindo R$ 4,00. Nessa situação, a inflação passaria dos dois dígitos (acima de 10%). Como ele foi bem específico, acabei guardando o vídeo para conferir se suas previsões se confirmariam. Infelizmente foi o que aconteceu. Assista no link (https://www.youtube.com/watch?v=sIBHpjyBjgs&feature=youtu.be&t=32m16s)

Confirmação:

Essa entrevista foi em junho de 2015. Desde aquele dia o dólar começou a subir até ultrapassar a barreira dos R$ 4,00 em setembro. Como você pode ver na reportagem, link (http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2015/09/mercadante-e-barbosa-desmentem-que-levy-deixara-cargo-de-ministro.html), já existiam boatos sobre a saída do Levy. No mesmo mês, o dólar atingiria a maior cotação da história do Plano Real. O dia da alta foi marcado por votações no congresso que aumentariam as despesas do governo e o risco de rebaixamento por mais uma agência, que levaria o Brasil a perder o grau de investimento.

 No dia 19 de novembro a inflação passou a casa dos 2 dígitos (veja link http://oglobo.globo.com/economia/previa-da-inflacao-oficial-passa-de-dois-digitos-chega-1028-18088506). No dia 16 de dezembro a agência Fitch rebaixou o Brasil e, com isso, perdemos o grau de investimento de duas agências (veja link http://www.valor.com.br/financas/4360470/fitch-rebaixa-rating-e-brasil-perde-grau-de-investimento). Estamos perto de perder o grau da terceira. Dois dias depois do rebaixamento o ministro Joaquim Levy pediu para sair e Nelson Barbosa assumiu o ministério (veja link http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/12/saiba-quem-e-nelson-barbosa-o-novo-ministro-da-fazenda.html). No dia 21 de dezembro, posse do Nelson Barbosa, nossa moeda voltou a desvalorizar e o dólar passou dos R$ 4,00. A bolsa fechou no seu menor nível desde abril de 2009.

Tudo que foi descrito no final da entrevista do Samuel Pessôa se materializou quando ficou claro para todos que o Joaquim Levy não tinha apoio do governo e do partido que o governa para adotar as medidas de ajuste fiscal. Não faltaram demonstrações públicas de descontentamento e desaprovação das medidas para controlar os gastos do governo.

Poderia listar várias demonstrações de falta de convicção do governo de que precisa controlar gastos. Tudo pode ser resumido com as comemorações que aconteceram com a saída do Levy. Veja nessa reportagem link http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,lula-e-pt-comemoram-a-escolha-de-barbosa,10000005297. Ela deixa bem claro que Nelson Barbosa representa o retorno das políticas econômicas adotadas até 2014. Estas políticas são defendidas pelo governo até os dias de hoje e são exatamente as mesmas políticas que fizeram a economia do país chegar onde estamos neste momento.

O gráfico abaixo mostra o efeito positivo (de curtíssimo prazo) das intervenções do Estado na economia depois da crise de 2oo8. É possível ver com clareza que nos anos seguintes ocorreu um sistemático desaquecimento. Isto foi o efeito colateral do excesso de intervenções do Estado na economia no longo prazo.

Nelson Barbosa já participava do governo Lula e Dilma, fazendo parte da equipe do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Quando estava no governo, participou dos estudos e apoiou desonerações tributárias em empresas de setores específicos, redução forçada dos juros, controle do câmbio, incentivos ao consumismo e endividamento da população, controle de preços administrados para maquiar a inflação, intervenções e pedaladas fiscais. Existe o sério risco do TCU condenar Nelson Barbosa por ter assinado uma das pedaladas onde o governo gastou dinheiro de bancos públicos e do FGTS, para não permitir que a sociedade percebesse que o governo estava sem dinheiro para continuar a gastança e o desperdício de recursos.

Nelson Barbosa acredita que o governo deve continuar intervindo fortemente na economia. Ele não aceita o fato de que essas intervenções acabam gerando problemas e distorções como o aumento da inflação, queda de credibilidade e fuga de investimentos no longo prazo. Para entender o que existe dentro da cabeça do Nelson Barbosa, é curioso ler este documento escrito por ele (link file:///C:/Documents%20and%20Settings/andreiaruas/Meus%20documentos/Downloads/barbosa-nelson-souza-jose-antonio-pereira-de-a-inflexao-do-governo-lula-politica-economica-crescimento-e-distribuicao-de-renda.pdf) em 2009 durante a recuperação da economia gerada por medidas intervencionistas. Barbosa é visto como um dos pais da Nova Matriz Nova Matriz Econômica e acredita no desenvolvimentismo, inspirado no keynesianismo.

O Keynesianismo ou a escola Keynesiana é a teoria econômica baseada nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes. Ele defendia a forte intervenção do Estado na economia como solução para todos os problemas econômicos. É como se os políticos e os funcionários públicos de um governo qualquer fossem extremamente competentes, eficientes e bem-intencionados para tomarem as melhores e mais acertadas decisões econômicas, gerando benefícios para a sociedade. Nesse mundo imaginário, teórico, utópico, onde existem governantes perfeitos, as decisões estatais não implicariam em desequilíbrios, distorções, injustiças, conflitos de interesse, inflação, corrupção, endividamento e empobrecimento das empresas e da sociedade.

Na teoria, um Estado capaz de tomar as melhores decisões é algo muito bonito e cômodo de imaginar. Seria maravilhoso se isso fosse possível. Imagine se todas as decisões econômicas fossem tomadas por políticos equilibrados, com inteligência acima da média e com nível moral, intelectual e ético excepcionais.

A figura de um governante que se apresenta como grande defensor do emprego, dos juros baixos, da oferta de crédito barato, contra a ganância dos malvados empresários e investidores é algo que ilude e atrai muitos votos para os políticos que tentam vestir essa fantasia.

Infelizmente, os fatos mostram que nada disso é sustentável. No curto prazo, as intervenções do governo podem reduzir o desconforto da população e aumentar a percepção de bem-estar. No longo prazo, nada disso se sustenta. Quando o dinheiro público acaba, quando a dívida do Estado perde o controle, a fantasia acaba e a realidade se impõe. Um dia a conta chega e não é o governo que paga a conta, quem paga a conta é quem trabalha, produz e paga impostos.

A teoria econômica seguida pelo atual governo acredita que o Estado precisa gastar mais para estimular a economia. Não importa se, para isso, o Estado tenha que contratar pessoas para cavar buracos e depois contratar outras pessoas para tapar os buracos que foram abertos. O importante seria o Estado gastar mais, mesmo gastando mais do que se arrecada. Eficiência no uso do dinheiro gasto é o que menos importa. Para eles, o importante é gerar empregos e distribuir renda, custe o que custar.

A gastança não se limita ao Estado. A ideia central sempre foi estimular as empresas e a população a gastarem mais, mesmo sem terem dinheiro para isso. Linhas de crédito subsidiadas foram oferecidas e todos puderam assumir dívidas para aquecer a economia. Para eles, não importava se isso iria comprometer a saúde financeira dos bancos estatais, das empresas, das pessoas e do próprio Estado. Assista esse vídeo link e perceba que o governo acredita que a vida das pessoas só melhora através do acúmulo de dívidas e do aumento dos gastos do governo. O problema é que essa festa da gastança não garante crescimento sustentável no longo prazo. Um dia o dinheiro acaba e a sociedade paga a conta.

Um novo comercial de um banco estatal mostra o tipo de educação financeira que tentam embutir na cabeça das pessoas e que está alinhada com a teoria econômica seguida pelo governo, que tem o objetivo de estimular o consumismo e os gastos mesmo que isso gere consequências negativas como o aumento do endividamento do governo, das empresas e das famílias.

No comercial, um homem perde o sono ao perceber que gastou mais do que devia no cartão de crédito. A mulher sai do supermercado e percebe que entrou no cheque especial. A solução proposta pelo banco estatal é buscar o endividamento para resolver seus problemas financeiros no curto prazo. A solução correta é totalmente diferente, mas vai contra a teoria econômica defendia pelo governo. Se você gastou mais do que podia no cartão de crédito, o correto é parar de gastar, comprar menos, fazer economia, reduzir o consumo de supérfluos, fazer um orçamento para impor limites aos gastos, encarando o problema de frente, assumindo as responsabilidades e as consequências pelo seu consumismo. O correto é pagar a dívidas com base no resultado deste corte de gastos. O correto é que suas despesas sejam compatíveis com suas receitas. O correto é manter algum dinheiro guardado como reserva para emergências.

Na cabeça desse governo, o correto diante de despesas acima das receitas é procurar o endividamento. É isso que o governo faz e isso que o governo recomenda que as famílias façam através deste tipo de comercial. Como educador financeiro, não posso concordar com isso. Educação financeira de banco só serve para ensinar você a se endividar mais, com responsabilidade, ou seja, podendo pagar os juros e as taxas sem cair na inadimplência achando que está fazendo um ótimo negócio.

Para entender o que passa na cabeça do Governo Federal sobre gastos públicos, basta observar as palavras ditas pelo líder do governo na Câmara durante a posse do Nelson Barbosa (leia aqui). Para eles o Brasil precisa de “mais Estado” e “menos mercado”. Acreditam que o governo, as empresas e as pessoas precisam de mais dinheiro emprestado para poderem gastar mais. Isso significa estimular o crescimento com mais dívidas. Depois, a presidente fez um pronunciamento onde colocou a culpa dos problemas econômicos que enfrentamos em fatores externos (não assume nenhum erro passado). Para concluir, ela disse que a tarefa do Nelson Barbosa era “Contagiar a sociedade brasileira com a crença de que equilíbrio fiscal e crescimento econômico podem e devem ir juntos.” (assista link http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/12/novo-ministro-da-fazenda-nelson-barbosa-toma-posse-em-brasilia.html).

Realmente será necessário contagiar crenças para fazer a sociedade acreditar que será possível o Estado (com esse governo) atingir o equilíbrio fiscal sem comprometer o crescimento da economia, pois quem vai pagar a conta para equilibrar as contas do governo é a sociedade. Eles não acreditam que o Estado deva gastar menos para equilibrar as contas, eles acreditam que o Estado precisa: arrecadar mais, dever mais e gastar mais para estimular o crescimento. Por isso, o governo fala em crenças e não em convicções. Já ouviu falar em crenças limitantes? Uma imagem vale por 1000 palavras:

O que esperar do Nelson Barbosa?

1. O governo não vai controlar gastos. Eles acreditam que a solução dos problemas econômicos está no aumento dos gastos do governo.

2. Para gastar mais, o governo vai tentar aumentar os impostos. Ninguém sabe se vão conseguir apoio político para isso.

3. Para gastar mais sem aumentar impostos, a dívida vai continuar aumentando. Para aumentar a dívida basta não fazer nada. Ela crescerá naturalmente se o governo não parar de gastar mais do que arrecada.

4. Quando o governo gasta mais do que arrecada, isso estimula o aumento da inflação e o aumento do dólar. Já faz tempo que o governo não encara inflação elevada como um problema grave.

5. Tudo isso será um grande atraso, mas não será o fim do mundo. Quem sabe as pessoas param de acreditar que o Estado interventor seja capaz de resolver todos os problemas da economia.

 Como ficam seus investimentos?

1.   Todos os governos são passageiros. O país e a sociedade ficam e os governantes passam.

2. Os juros continuarão elevados. O Tesouro Selic e títulos pós-fixados como CDB, LCI e LCA vão continuar acompanhando o aumento da Taxa Selic. Já títulos e investimentos prefixados ou que pagam IPCA + juros fixos, serão uma ótima oportunidade quando a economia der sinais de recuperação. Será uma boa oportunidade para fixar juros elevados por vários anos enquanto a economia se recupera (para isso é necessário que você aposte na recuperação da economia).

3. Vai ser difícil o governo conseguir aprovar aumento dos impostos sobre investimentos e CPMF sem apoio político.

4. O mercado de renda variável vai continuar sofrendo com a instabilidade econômica e política. Isso vai gerar oportunidades para a compra de ações de boas empresas, mas que só trarão retorno no longo prazo, quando a economia se recuperar. Como falei, os governos passam.

5. O mercado imobiliário depende de crédito, como já falei aqui. Nos momentos de crise surgem oportunidades para quem tem dinheiro e não depende de crédito para comprar imóveis em processo de desvalorização.

 Crise é oportunidade:

Para quem é educado financeiramente, crises são oportunidades. Você pode até ganhar menos dinheiro durante as crises, mas são nelas que você encontrará as melhores oportunidades para o dinheiro que você poupou quando a economia estava crescendo. Não podemos dizer o mesmo das pessoas mais imediatistas, consumistas e sem educação financeira. Elas são vítimas de comerciais como este do banco estatal. Estas pessoas aproveitaram a economia aquecida para gastar tudo que receberam, aumentando o padrão de vida e ainda, acumularam dívidas. No momento de crise, estas pessoas só encontrarão arrependimentos e uma oportunidade de mudar de consciência. Fuja da educação financeira dos bancos. Busque a educação financeira de autores independentes. Veja link http://www.clubedospoupadores.com/livros-recomendados-de-educacao-financeira 

Para terminar. Se você pensa diferente de tudo que foi dito aqui, não tem problema. Cada um pensa conforme sua bagagem de experiências, suas crenças e valores.

Fonte: Clube dos poupadores

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