Investigação revela que Lula conseguiu burlar fiscalização de voo

O estranho caso em que um delegado da PF proibiu fiscais de inspecionar bagagens de Lula quando ele se preparava para voar em jatinho privado para Roma

NA MANHÃ DE 3 DE JUNHO do ano passado, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, um jato particular, prefixo PP-SCB, se preparava para decolar. A aeronave já estava taxiando quando os pilotos e os cinco passageiros foram surpreendidos por um cerco. Viaturas da Polícia Federal e da Receita Federal interceptaram o avião com sirenes e alertas luminosos ligados. A ordem para parar era clara, mas o comandante seguiu com as manobras para levantar voo. Para impedir a decolagem, uma viatura se posicionou em frente à aeronave. Um policial, uniformizado e portando uma submetralhadora, desceu do carro. Por meio de sinais usados na aviação, insistiu para que o piloto desligasse os motores. A operação, atípica, fora deflagrada por iniciativa da Receita Federal. Os fiscais foram informados de que malas haviam sido embarcadas de maneira suspeita no jatinho, sem passar pelo raio X, numa burla aos sistemas de controle.

Os fiscais não sabiam quem estava a bordo, tinham informações imprecisas sobre o destino do avião e haviam sido alertados de que a bagagem embarcara durante a madrugada, driblando a fiscalização alfandegária. Diante da suspeita, não restava alternativa: era preciso correr para fazer uma inspeção, antes que o jatinho partisse. A operação cinematográfica, porém, foi abortada antes de ser concluída – e isso deu origem a uma investigação sigilosa em curso na Polícia Federal e no Ministério Público Federal. Após o piloto desligar os motores e abrir a porta, um delegado e um agente da Polícia Federal entraram no jato, um Bombardier Challenger 605, com capacidade para até oito passageiros e três tripulantes. Dentro do avião, sentado em uma das poltronas da cabine de passageiros, estava o ex-presidente Lula, acompanhado de um segurança mais três auxiliares – seu fotógrafo particular, um assessor de imprensa e um tradutor.

Assim que os policiais entraram no jato, Lula se trancou na cabine de comando, conforme registrou a própria Polícia Federal em um dos documentos que integram a investigação e ao qual VEJA teve acesso: “O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparentava estar bastante nervoso, tendo ingressado e se mantido trancado por um tempo na cabine de comando”. A bordo, os federais foram informados de que o destino do voo era Roma, a capital italiana, onde Lula cumpriria nos dias seguintes uma série de compromissos, entre eles uma reunião com o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi e uma palestra para ministros da Agricultura de diversos países. As malas estavam na parte traseira da aeronave. Eram doze, ao todo, e sete delas não haviam passado pelo raio X. Enquanto o agente se preparava para inspecionar a bagagem, o delegado saiu da aeronave para conversar com um assessor do presidente em terra. Alguns minutos depois, o delegado voltou a bordo e determinou que a operação fosse suspensa e o avião, liberado. Houve um estranhamento geral com a ordem do chefe da operação – e o caso foi levado aos superiores. A denúncia deu origem à investigação sigilosa.

Em depoimento, um dos agentes contou que fora acionado pelos funcionários da Receita ainda de madrugada, quando as malas estavam sendo embarcadas no jato. Passou então a preparar a operação. Acionou o serviço de cães da PF para fazer a inspeção e procurou o delegado Luís Pardi, chefe do plantão naquele dia, para organizar a operação. O depoente diz que, embora fosse necessária uma decisão rápida (“A aeronave estava prestes a decolar”), o delegado “estranhamente aparentava querer retardar a ação”. O agente relatou ainda que encontrou na pista um pedaço de papel dobrado com o registro do voo. Ali, o destino não era Roma, mas a Ilha do Sal, em Cabo Verde, entreposto no meio do Oceano Atlântico usado para abastecimento por aeronaves sem autonomia de voo da América do Sul para a Europa. Procurado por VEJA, o delegado disse: “O que eu tinha para falar já foi explicado internamente”. O empresário Michael Klein, dono do jato à época, informou que cedeu o avião a pedido do ex-presidente.

Fonte: VEJA

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