Garotos vestidos de mulheres dançam para uma plateia de homens influentes no Afeganistão

A redação da Agência France Presse (AFP), em Cabul, ganhou um dos mais prestigiosos prêmios do jornalismo na Ásia por sua reportagem sobre a prática do “bacha bazi”, a terrível tradição afegã de escravidão sexual de jovens e seus efeitos sobre a segurança no Afeganistão, país devastado pela guerra.

O chefe de redação Anuj Chopra e a equipe de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas, conquistaram o prêmio de excelência em reportagem sobre direitos humanos da Sociedade de Editores da Ásia (Society of Publishers in Asia), por sua matéria exclusiva sobre como os talibãs exploram os chamados ‘bacha bazi’.

A equipe da AFP já havia recebido, no mês passado, outro prêmio de jornalismo sobre direitos humanos (HRPA), em Hong Kong, pela mesma série sobre o ‘bacha bazi’.

O que é o “bacha bazi”?

A prática do ‘bacha bazi’, que literalmente significa, em idioma dari, “brincar com jovens”, é um jogo perverso em que adultos influentes e ricos, chefes de guerra, comandantes, policiais, homens políticos, podem possuir um “bacha”, ou seja, um jovem em casa, como símbolo de sua autoridade ou influência.

Em geral, as crianças são escolhidas na rua por sua beleza. Vindas de classes pobres, tornam-se propriedade dos seus mestres e são formados em dança e canto.

Vestidos de mulher, maquilados e muitas vezes com cabelos tingidos, os rapazes, de 12 a 18 anos, são usados como divertimento e brinquedos sexuais em noitadas entre homens. O fato é aceito normalmente, apesar do país muçulmano condenar a homossexualidade como um desvio proibido pelo Islã.

Mas, além de mostrar essa prática revoltante, o trabalho dos jornalistas foi mais além, revelando um outro drama vivido pelos jovens: a instrumentalização de sua tragédia pelos talibãs. Eles incitam a revolta dos rapazes contra os seus sequestradores e aproveitam o fato de terem livre acesso às delegacias para convencê-los a cometer ataques, que já deixaram centenas de mortos nos últimos anos.

Artigos publicados desencadearam investigações

O próprio presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, não ficou indiferente à questão e, após a repercussão com a publicação dos artigos, ordenou uma investigação. “A AFP se alegra por este reconhecimento ao bom trabalho realizado por nosso escritório no Afeganistão que, como os demais meios de comunicação do país, funciona em condições extremamente difíceis”, afirmou o diretor regional da AFP para a Ásia, Philippe Massonnet, elogiando “a coragem das vítimas, de suas famílias e das autoridades que aceitaram falar conosco”.

A premiação aconteceu na quinta-feira (15), em Hong Kong. Os outros vencedores foram o jornal Washington Post por uma série sobre as injustiças contra as mulheres na Índia, e oFinancial Times, por um relatório sobre o neomaoísmo na China.

Estados Unidos criticados pelo silêncio sobre aliados

Em 2015, o escândalo veio à tona, quando os superiores dos soldados americanos baseados no Afeganistão, foram instruídos para silenciar sobre o estupro de meninos nas bases militares por oficiais e policiais afegãos. O fato causou uma avalanche de críticas aos Estados Unidos, por apoiar de forma velada o crime da pedofilia dos seus aliados.

(AFP e RFI)

Fonte:  http://br.rfi.fr/